terça-feira, 27 de abril de 2010

DIA DE FOLGA (09/2000)

Hoje eu quero paz,
meus pés por sobre a mesa,
silêncio absoluto.
Nada de lamentações.
Dia sem dor de cabeça.
Não quero choro nem risos,
hoje eu quero paz.
Buscar em meu interior
o sentimento cru da realidade,
nada de falsidade
minha liberdade comprimida.
Um comprimido de problemas
basta pra me agonizar.
Hoje eu quero paz,
pois amanhã que venha a dor.
Estarei forte e preparado
pra bater e apanhar.
Mas hoje não,
estou fraco e tímido.
Amanhã reagirei
aos mais covardes tormentos.
Hoje é minha folga.
Hoje eu quero paz.
Amanhã é muito tempo
pra sentir o que não tenho.
Deixe-me aqui,
sentindo dor e compaixão.
Por ser só e calmo.
Hoje eu quero a paz
que amanhã não terei mais.

DISTÂNCIA (03/2000)

Olhando assim de tão longe me aperto,
apenas sentindo tua pela sem tocar.
Pareço estar aí em ti, mas não acerto,
nem querendo, só sofrendo seu olhar.

Distância pífia incapaz de devolver,
a solidão que sinto sem você.
Mas não te perco, só te tenho por querer
e por tê-la não me perco em meu ser.

A saudade me invade fraca
sem a força que um dia me bateu,
me fazendo uma luz em sua alma
linda alma que a mim se devolveu.

De um coração atroz tiro amor,
mas dele não saio, só me prendo.
Quando um surto de razão me traz a dor,
é porque leva o amor que me trazendo,
me toma e me atrai,
me trama e me trai,
e fico em ti
mesmo quando você se vai.

ANGÚSTIA (12/2005)

E foi no que sobrou de mim
onde já estava morto,
vi a última luz que me restava
pra me livrar desse sufoco.

Um último resquício de paz
último sussurro de vida,
última gota capaz
de sarar minha ferida.

Haja poesia pra tanta angústia
consumindo tudo que me resta,
pois ao parar de frente pro futuro
e espiar em fina fresta,

vejo o quanto será duro
alcançar alguma vida,
que valha a pena um murmúrio
ou um berro de agonia.

E vou me derretendo
na chama incandescente do passado,
ele me fez o que estou vendo
mesmo quando vejo o lado errado.

Sou torto nesse mundo
onde minha alma se esvazia,
fico como um buraco sem fundo
repleto de nostalgia.

INSPIRAÇÃO (08/2005)

A minha vida está
no poema que não faço,
nele vou desembaraçar
todo meu embaraço.

Ele está lá, escondido
no que eu realmente sou,
enquanto eu estou perdido
ele a muito me achou.

E fica lá, quieto
esperando que eu o veja,
louco para ser descoberto.
É tudo o que deseja.

Mas não mexo
pois aqui ele é meu,
e é com esse pretexto
que eu também sou seu.

Eis que um dia não aguenta
e vem como um furacão,
me aprisiona e arrebenta
e nasce a inspiração.

domingo, 25 de abril de 2010

ESCOLHAS E MUDANÇAS

Fazemos escolhas o tempo todo, onde comprar pão, qual roupa vestir, qual o melhor caminho pro trabalho, onde estudar, comprar carro ou moto, tudo se faz e constrói nas pequenas escolhas. O fato de ir na padaria pode determinar com quem se casar, num simples ato cotidiano podemos conhecer aquela pessoa com quem poderemos passar o resto de nossas vidas. Mas a vida não é simples como nossas escolhas, ou melhor, a vida é complicada justamente por causa de nossas escolhas, sejam elas certas ou erradas.

A pior coisa do mundo é fazer a coisa errada tendo a absoluta certeza de estar fazendo a coisa certa. Isso nos dá a falsa sensação de felicidade e realização, nos dá um ânimo para a vida, nos faz achar que estamos no caminho certo. Mas o caminho que estamos seguindo é o do abismo, quando vem a tona a realidade que a pressa e o entusiasmo cegou pode ser tarde demais. O tempo já passou, a vida já atropelou nossos sonhos, e as nossas escolhas – por melhor que tenham sido as intenções – nos levaram para um lado negro, triste e difícil de transpor. Nos levam para onde não gostamos de ir, nos levam pro caminho da reflexão e da autocrítica. Nos levam para onde somos obrigados por nós mesmos a admitir o erro, admitir a falha, admitir que não somos perfeitos.

Nos relacionamentos conjugais queremos ter sempre razão, não por querer ser melhor que o outro, mas por querer ser o melhor para o outro. É muito difícil olhar pra si e esmiuçar todos os nossos sentimentos, todos atos que podem ferir ou magoar quem amamos, tudo isso é difícil mas é possível. O que beira o limite entre o possível e o impossível é, depois de tudo isso, ter capacidade de mudar. A mudança de comportamento, mudança de estilo de vida, mudança de valores, tudo isso nos traz medo e insegurança. Como mudar nossa avaliação do que é mais ou menos importante? Como reconhecer que tudo que fomos até nos dividir em dois – homem e mulher – pode não ser o ideal para fazer alguém feliz?

As escolhas que fazemos são fundamentais para nosso presente e futuro, mas as mudanças que fazemos podem determinar novas escolhas. As escolhas podem ser fruto do que vemos, da realidade que está na nossa frente, mas o ser humano não é tão simples. Ele faz a escolha baseado no presente, mas fazendo uma projeção de futuro. O erro pode estar justamente no fato de ignorar o outro nessa projeção, ignorar que as mudanças que se espera da pessoa amada pode não significar a felicidade dela e sim a nossa. E como ser um casal de um só feliz? É impossível porque a infelicidade da pessoa amada é um câncer que devora a nossa. Não por egoísmo e sim por amor. Como ser feliz tendo ao nosso lado a pessoa que amamos infeliz? É impossível!!!